Esse é o maior problema dos livros atuais.
E a sua obra provavelmente também tem ele.
Oi, more!
Sei que faz um BOOOOOM TEMPO desde que eu publiquei a última news, mas é que a leitora crítica/escritora que vos fala passou por processos difíceis nesse último ano.
Nesse tempo fora, porém, eu entrei em mais um curso de Leitura Crítica para aprimorar minhas habilidades e estou cheia de ideias de assuntos para falar com vocês.
O de hoje é um assunto que eu acho doido eu nunca ter falado: o mantra Mostre, Não Conte.
A ideia de mostrar e não contar é bem famosa para quem estuda Escrita Criativa, e mesmo assim é um dos maiores problemas que a gente vê em livros no geral.
É uma técnica difícil porque ela demanda sair do nosso modo automático e isso pode ser um desafio.
De qualquer jeito, antes de começar a falar do conceito, quero falar da história por trás, porque eu acho ela maravilhosa.
A ironia desse conceito ter surgido por carta e agora, eu explicar ele por email (a carta moderna)
Antigamente, era comum que escritories trocassem ideias por meio de cartas.
Através disso, temos muitos insights interessantes de autores clássicos até hoje. Pensamentos que se adaptam aos novos tempos e desenvolvem outros.
É de um registro em carta de Tchekhov, um famoso autor russo, que tiramos esse ensinamento tanto repetido por aí.
Nela, ele aconselha ao irmão:
"Nas descrições da Natureza, deve-se agarrar pequenos detalhes, agrupando-os de modo que, ao fechar os olhos, o leitor obtenha uma imagem. Por exemplo, você terá uma noite de luar se escrever que, na represa do moinho, um pedaço de vidro de uma garrafa quebrada cintilava como uma estrelinha brilhante, e que a sombra negra de um cão ou de um lobo rolava como uma bola."
Mas o que ele quis dizer com isso?
Afinal, o que é "Mostre, Não Conte"?
Traduzindo o exemplo acima:
Ao invés de contar que a lua brilhava no céu, Tchekhov propõe mostrar, através da imagem de um pedaço de vidro em uma represa que cintila como uma estrela.
Perceba como, parafraseando a carta, ele "se agarra a pequenos detalhes” que juntos formam uma imagem para ê leitore.
Isso é porque o principal motivo desse mantra é trazer mais imersão para a história.
Um texto nunca vai ser somente mostrar ou contar, mas um texto carregado de contar fica maçante e difícil de ler.
Veja os exemplos:
Contar: Amanda entrou na floresta escura e assustadora.
Mostrar: A cada passo para o centro da floresta, Amanda era invadida pela escuridão ao redor. Seu coração palpitava forte. O som de cliques de insetos misturados pelo uivo do vento, fizeram-a jurar que os galhos retorcidos das árvores eram garras prestes a capturá-la. Alguém encostou em seu braço e ela não encontrou voz para gritar. As lágrimas saíram depressa quando sentiu a mão quente de Danilo na sua:
— Calma, eu tô com você.
Viu a diferença? Concorda que segunda opção é muito mais imersiva que a primeira?
E com isso, não estou dizendo que você só deve mostrar e sim, saber quando usar e quando não usar a técnica.
Vai ter momentos no seu texto que você vai precisar contar. E TUDO BEM.
Mas deve-se ter cuidado para não exagerar a mão no contar.
Mostre, Não Conte é quase um lembrete de que você deve se preocupar com o envolvimento dê leitore com seu livro.
Porque esse mantra da escrita deve ser levado a sério
Talvez você tenha pensado em algum escritor clássico que usa muito o contar e como essa pessoa é reconhecida até hoje.
Será que isso refuta o Mostre, Não Conte?
A resposta é não.
Estamos falando de leitories diferentes. Ê leitore moderne tem mil e um estímulos e opções para se distrair. A atenção delu é dividida por muitas e muitas coisas.
Ê leitore na atualidade PRECISA que o livro seja imersivo, elu quer se ver nas páginas, sentir o que ê protagonista sente.
E com tantas opções de livros por aí (ou até de séries, filmes, jogos, etc), quem garante que um livro com uma narração contada e distante não vai afastar sue leitore?
E não estou dizendo que você não deve ler, nem aprender com os clássicos.
Pelo contrário, eles são a base formativa de escritories e devem ser lidos, porém, temos que ter em mente a época que eles escreviam.
Você escreve para ê leitore de hoje, então se adapte aos tempos atuais.
Tá, mas como eu faço isso?
Estou pensando em algum momento trazer mais sobre isso em outras newsletters, para poder distrinchar melhor, mas existem algumas dicas que você pode começar a adotar hoje.
Algumas delas:
Planeje as cenas do seu livro - isso te ajuda a não contar demais porque você vai focar na situação, o que abre espaço para o uso de descrições mais vivas.
Evite usar muitos adjetivos ou advérbios - muitas vezes você pode mostrar como o personagem está por meio das palavras escolhidas, seja em um diálogo ou em uma ação.
Evite narradores não imersivos - o onisciente propicia uma narrativa mais contada (inclusive ele era mais comum antigamente), enquanto a primeira pessoa e a terceira pessoa limitada tendem a assumir um ponto de vista e se aproximar dê leitore.
Use descrições sensoriais - abuse das sensações de sue personagem, pense no que elu ouve, o que elu cheira, o que tateeia, etc, não só o que elu vê.
Trabalhe a ambientação- mostre onde a cena acontece, e os personagens interagindo com o ambiente, caso contrário, não há nada para ê leitore imaginar.
Provavelmente existem outras coisas que você pode fazer para melhorar seu Mostre, Não Conte, mas essas 5 já vão ser uma grande ajuda agora que você sabe (ou relembrou) esse conceito.
Exercício colorido
É claro que eu não poderia deixar de passar um exercício, né? Então, vamos lá. Observe o trecho abaixo e edite-o usando o recurso Mostre, Não Conte.
— Você chegou atrasada e foi com aquela menina de novo — disse a mãe, deixando claro que o problema não era o horário, mas a desobediência.
— Eu cheguei atrasada porque quis — respondeu a filha, já sem o cuidado de antes.
— O quê? Mas você nunca quis nada sozinha, sempre fez o que eu mandava.
— Isso só funcionava pra você. — disse a adolescente.
A mãe estava certa de que amor significava vigilância. A filha não quer mais viver apenas sendo correta ao olhos da mãe.
— Vai dizer que você sabe se proteger?
— Eu nunca vou saber se você não deixar eu tentar. Eu só obedeço há anos e agora não sei quem eu sou!
Sem ouvir ou assumir seu erro, a mãe atribui a culpa a uma influência externa:
— Essa garota está te mudando.
— Não. Ela só me mostrou que obedecer o tempo todo também é uma escolha. E eu não quero mais fazer essa.
Texto ruimzinho, né? Penei para trazer algo assim pra você editar/reescrever, mas acho de verdade que vai ajudar.
Se quiser me mandar o que fez, fique a vontade de deixar nos comentários ou responder esse email, que se tudo der certo, eu dou uma conferida no seu desempenho!
Se você gostou…
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Nos vemos de novo sem ser na próxima segunda, a outra!




Amei!! Bom ter vc de volta!